terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Talvez que eu morra na praia

Talvez que eu morra na praia
Cercado em pérfido banho
Por toda a espuma da praia
Como um pastor que desmaia
No meio do seu rebanho.

Talvez que eu morra na rua
E dê por mim de repente
Em noite fria e sem luar
Irmão das pedras da rua
Pisadas por toda a gente.

Talvez que eu morra entre grades
No meio de uma prisão
Que o mundo além das grades
Venha esquecer as saudades
Que roem meu coração

Talvez que eu morra no leito
Onde a morte é natural
As mãos em cruz sobre o peito
Das mãos de Deus tudo aceito
Mas que eu morra em Portugal.

(Alain Oulman/Pedro Homem de Melo)

E então...o fado da morte

E Fostes Tu Hoje
E Antes Foi Ela
E Ainda Antes
E Antes
Antes
E Quando Será A Minha Vez
Espero Ainda Hoje Por Esta Morte
Que Me Acompanha
Que Me Desperta Despois De Acordar
Cada Dia
Vejo Tudo Pela Última Vez
Desejo Tudo Pela Última Vez
Amo Tudo Pela Ultima Vez
Quero O Bem De Todos Mais Uma Vez
Sou Amigo Pela Última Vez
Olha-Me A Morrer
E Vê
Vê A Tua Vez
Agora
Que Melhor Presente Posso Eu Dar A Um Grande Amigo
Do Que A Consciência Da Sua Própria Morte?
Disfruta Deste Meu Fado Da Morte
E Vive

Enquanto espero, verto um tintinho quentinho num copo antigo e riscado

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Ruba'iyat e o vinho


Não vamos falar agora, dá-me vinho. Nesta noite
a tua boca é a mais linda rosa, e me basta.
Dá-me vinho, e que seja vermelho como os teus lábios;
o meu remorso será leve como os teus cabelos.



Busca a felicidade agora, não sabes de amanhã.
Apanha um grande copo cheio de vinho,
senta-te ao luar, e pensa:
Talvez amanhã a lua me procure em vão.



Hoje os meus anos reflorescem.
Quero o vinho que me dá calor.
Dizes que é amargo? Vinho!
Que seja amargo, como a vida.

Quando me falam das delícias que na outra vida
os eleitos irão gozar, respondo:
Confio no vinho, não em promessas;
o som dos tambores só é belo ao longe.


Bebe vinho, ele te devolverá a mocidade,
a divina estação das rosas, da vida eterna,
dos amigos sinceros. Bebe, e desfruta
o instante fugidio que é a tua vida.


Do Rubba'iyat de Omar Khayyam

sábado, 25 de dezembro de 2010

Cura-me outra vez

De novo preciso de ti
cura-me de outro amor que enterro
amor brutal e fantástico
como todos os amores sempre o foram

Vou ai e fico uma noite e quero ai dormir
quero de novo os teus seios
grandes firmes, jovens, conhecidos
quero de novo correr pelas tuas ancas
com os meus lábios
quero sentir-te,
cheirar-te
beber-te

Cura-me esta noite
ensina-me de novo onde está a liberdade
deixa-me visitar o teu jardim
entrega-te à minha sede

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Manter segredos, prosa fluída

Um segredo traído, inimigo é
um segredo escondido
nem segredo é

Nas tuas mãos amigáveis coloco
os meus segredos e a minha alma
descansa

Abre a boca e protege-me
nunca falando de mim
com a confiança que me deste
posso descansar enfim

E se o copo te encherem
para te soltar a língua calada
bebe com os que lá estiverem
mas não lhe temperes a salada

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A paixão e o vinho

Ahh jovens enamorados!
Dizem, como se só eles provassem disto, que é a paixão louca e química.
Já fui jovem e tive amores bem-amados, correspondidos, rechaçados e escondidos. Amei muitas interior e exteriormente, mas agora, nesta idade madura, sei que é agora que sinto mais paixão .
É mesmo agora, antes não.
Sei também que é parva, dura e que perdura, sem razão, como todas. Proibida, como muitas. Ah como me dói quando não me olha.
Quanto faço para que te sintas bem.
Nesta idade, sei que tudo isto é básico, químico, controlável e perecível mas, não querendo controlar o teu coração, não querendo ferir-te com a minha intenção, tomo um copinho e outro, até que o químico me chegue ao coração.

sábado, 30 de outubro de 2010

Bifanas de solteiro

Comprar umas bifanas por uns 70 ou 80 cêntimos (ou mais se tiveres convidados).
Levá-las para casa. Espalhar umas ervas aromáticas como cominhos e manjericão e coisas, por cima. Dependendo dos convidados, se os tiveres, não coloques muitas destas coisas pois há muita gente esquisita. Esfregar a carne com as mãos para estas coisas entrarem um pouco nela.

Besunta-las com alho picado, paprica e umas folhas de louro
Encher um copo com vinho e beber um ou dois golos.
Se tiveres convidados, enche-lhes os copos e deixa-lhes uma garrafa na mesa com um chouriço português cortado às rodelas, e o resto do mesmo, ou outro, numa tábua de cortar com uma faca de cozinha para eles se entreterem. Fatias de pão alentejano cortadas sem precisão. Se tiveres um queijo da ilha coloca-o na tábua também.

Fazer o arroz:
Fazer uma refogado só com alho e azeite. Não deixar queimar o alho.
(Para um solteiro normal)Deitar uma chávena de café e meia de arroz mexer tudo e deixar um pouco enquanto se toma um golo de vinho tinto, devagar.
Adicionar 3 dessas chávenas de água a isto.

Isto faz um barulho giro que convida a mais um golo de tinto.
Adicionar sal a gosto (provar a água para testar se o sal está a gosto)
Deixar ferver e, mal ferva, baixar o lume para o mínimo e deixar 12 minutos.

Quando o arroz estiver pronto, fechar o lume e não mexer. Nem é preciso olhar (actuar como um profissional mexendo-te pela cozinha e fogão como de quem entende o que faz).

Numa frigideira fazer um refogado com alho.
Tomar um copinho enquanto o alho faz barulho
Não deixar queimar

Adicionar sal à carne e deitar as bifanas no refogado com alho
Isto faz um barulho que abre o apetite e envia um agradável cheiro a refogado pela casa; além disto, convida a um golo não modesto, de tinto.
Vira-las quantas vezes quiseres
Retirar para um prato.

Deixar o pouco de molho que se criou na frigideira e não desligar o lume.
Deitar um pouco de macieira, entornar um pouco do tinto do teu copo lá para dentro,
adicionar um pouco de mostarda e, quando se está farto de fazer sempre este prato, um pouco de coco. Mexer tudo enquanto ferve por uns momentos.

Não esquecer de ir sempre enchendo o copo enquanto se cozinha.
Beber mais um golinho de tinto enquanto se mexe com alguma sabedoria.

Apagar o lume e deitar todo o molho por cima das bifanas que estão colocadas num dos lados do prato.
Com uma colher de pau colocar o arroz no outro lado do prato.

Tomar um trago e colocar musica adequada à hora e ao coração do dia.
Sentar-se e tomar um trago com a garrafa também na mesa.

Começar a comer. Se a carne estiver rija ou com nervos, porque pode ser que nem saibas escolher a carne, usa uma faca que corte bem e mastiga mais. Toma um golo forte de tinto para ajudar a engolir.

Não esquecer o bom pão alentejano necessário para ir molhando no molho saboroso e para rapar o prato no final.

Quando acabares, encher o copo e tomar um pouco de tempo a saborear o vinho que ajudará a digestão
Se tiveres visitas, oferece uma macieira ou algo português. Nada dessas coisas importadas.

Custo (para uma pessoa): 1 euro mais ou menos
Vinho: oferecido por amigos
Pão: é o mais caro de tudo mas dá para mais do que um dia

Isto, com variações pequenas e interessantes pode ser aplicado a muita coisa que se come.